« MAPA «
PROJETO NURC-RJ

DIÁLOGOS ENTRE INFORMANTE E DOCUMENTADOR (DID):

Tema: "Vestuário"
Inquérito 0096
Locutor 0111 - Sexo masculino, 25 anos de idade, pais cariocas, físico. Zona residencial: Norte
Data do registro: 04 de setembro de 1972
Duração: 40 minutos


Clique aqui e ouça a narração do texto


DOC. -  Vamos falar sobre vestuário e você vai ... Por exemplo te ajudaria começar contando, se você fosse fazer uma viagem, que é que você ia arrumar, botar dentro da mala, de roupa?
LOC. -  Os elementos?
DOC. -  Quais são as coisas que você poria dentro da mala, pra viajar?
LOC. -  Bom, eu usaria o essencial, né? Não sou assim, eh, de me preocupar muito com o vestuário. Então eu colocaria o essencial pra, dependendo do lugar pra, que eu fosse, né?
DOC. -  Manaus, um mês.
LOC. -  Um mês em Manaus? Olha que eu já estive lá, heim! Eu acho que eu levaria umas roupas bem leves, né, e roupa de banho. O calor lá é intenso, né, mas eu não ... O fato é o seguinte, eu não me preocuparia muito com essas roupas, entende? Uma viagem pra Manaus eu ficaria muito mais entusiasmado com as aventuras, com as coisas que eu ia conhecer por lá, do que propriamente com a roupa que eu teria que levar pra lá.
DOC. -  Mas você disse que já esteve lá?
LOC. -  Já. Já estive.
DOC. -  Como é que as pessoas se vestem? Você observou isso?
LOC. -  Bom, não observei assim, não fiquei com essa preocupação porque como eu disse eu não me preocupo muito com isso, eu me preocupei mais com um, com um mercado que tem lá, mercado aliás muito original, com a construção do porto de lá, que é um porto fluvial, que é um, que a gente não está acostumado a ver, né, é um, a gente está acostumado só com portos marítimos, né, quer dizer, eu não me preocupei muito, mas é de se esperar que a roupa que eles usam é uma roupa bem leve também, bem fresca, porque o calor de lá é pior que o do Rio, viu?
DOC. -  E se você fosse a Porto Alegre no inverno, um frio de cão, quais são as roupas? Agora você vai receber um convite, tal avião (inint.) e tal.
LOC. -  Levaria justamente as roupas que eu não levaria pra Manaus. (riso)
DOC. -  Quais são?
LOC. -  Ué!
DOC. -  Vai discriminando aí, tantas tantas, tantas tantas.
LOC. -  Olha, eu levaria uns dois pulôveres, um, um casaco bem pesado, né, meias, meias, eh, de lã.
DOC. -  Quantas?
LOC. -  Eh, umas três meias, eu também não sou muito de usar meia não. Eh, levaria aí, além do essencial, né, alguma coisa mais (sup.)
DOC. -  (sup.) O que é o essencial? Eu estou interessadíssima no essencial. (risos)
LOC. -  O essencial, eh, as roupas de baixo, cuecas, eh, qual é a roupa essencial maior que eu tenho, é cueca, né? (risos)
DOC. -  Cueca é o fim, não é? E depois da cueca é um perigo. Vem cá, você sabe descrever como é que o F. está vestido, o que é que o F. está vestindo (inint./risos)
LOC. -  Uma calça Lee de veludo, né, amarela, um par de meias compridas com uns desenhozinhos amarelos e brancos, um sapato marrom que está precisando dum, duma engraxadazinha, uma camisa de linho ou 'country'? É de linho?
DOC. -  Não sei.
LOC. -  Não sabe. Camisa de linho de manga comprida, verde, um cinto de couro com fivela grande, parece (sup.)
DOC. -  (sup.) De metal (sup.)
LOC. -  É, e o essencial e as cores e os detalhes eu não sei.
DOC. -  E você?
LOC. -  Eu estou com uma calça Lee dessas azul-arte, né, que chama? Uma sandália baiana, de sola de, de pneu de caminhão, uma camisa preta de manga comprida, ou melhor, de manga curta e a, e o essencial.
DOC. -  O essencial. Como é que é feita essa camisa?
LOC. -  Essa camisa é uma camisa de malha. Camisa de malha. Não sei mais detalhes.
DOC. -  Bom, espera aí, deixa ele descrever como é que eu estou vestida. Ah, é, a M.H. Está legal.
LOC. -  Você está com uma camisa de gola rolê, cor-de-abóbora, aliás muito bonito, uma suéter verde, uma saia xadrez, combinando com a blusa, de meias compridas, meias de mulher compridas, um sapato marrom com fivela e o essencial. (riso)
DOC. -  Qual é o meu essencial? (risos)
LOC. -  Eh, presumo, sutiã, calcinha e não sei se ainda se usa combinação. Acho que não, né, principalmente com saia, não deve se usar.
DOC. -  Sim. Agora, me diz uma coisa, se você fosse estar nessa fase do ano no Rio Grande do Sul, você usaria um pulôver desse tipo? Um pulôver (inint.) era igual?
LOC. -  Não, eu usaria um pulôver mais, mais completo, quer dizer, um ... Esse aí seria um, é um pulôver mais bonito, não é, tem assim mais estética, mas eu acho que em termos de eficiência não seria tão bom quanto um pulôver de manga comprida, e eu me visto geralmente pensando no, na eficiência, certo? Então eu levaria um pulôver de manga comprida, talvez menos bonito mas que agasalhasse mais.
DOC. -  E esse seu?
LOC. -  Eh, a natureza dele?
DOC. -  Sim.
LOC. -  É malha. Malha grossa.
DOC. -  Você sabe como se chama essa malha desse tipo? É diferente dessa aqui, não é?
LOC. -  Certo. Não sei a terminologia não (várias vozes/inint.)
DOC. -  Agora, você já viu esse detalhe aqui. Como é que chama este detalhe aqui da camisa do F.?
LOC. -  Punho, né, punho, não é isso?
DOC. -  Sim. Agora, você lembra, há camisas que têm uns punhos diferentes, você manja disso?
LOC. -  Não, não manjo. Tem uns punhos aí trabalhados, né?
DOC. -  Como assim?
LOC. -  Umas franjas. Não deve ser esse o termo não, mas ...
DOC. -  E às vezes tem uns assim (inint.)
LOC. -  Dobrados?
DOC. -  É. O que que põe pra prender eles?
LOC. -  Abotoaduras. Botão.
DOC. -  Agora você trabalha como?
LOC. -  Eu? Bom, eu, na pós-graduação, eu vou ... Eu aliás estou com a roupa que eu trabalhei lá hoje, né, quer dizer, eu vou esporte, à vontade (sup.)
DOC. -  (sup.) Você não usa nenhum, nenhum traje especial pro trabalho?
LOC. -  Não.
DOC. -  Mas há outros professores que usam, não, às vezes usam.
LOC. -  Não. Lá não ... O pessoal não usa assim jaleco, a não ser num trabalho de oficina, né, que a gente queira preservar a roupa, mas os nossos trabalhos são mais assim em salas de aula, mesmo os trabalhos de laboratório não ... São com materiais eletrônicos, quer dizer, não há essa possibilidade de, de sujar. Raramente a gente trabalha com elementos ou materiais que possam sujar a roupa, né? Talvez um laboratório de química ...
DOC. -  Aí o que é que o pessoal usa?
LOC. -  Aí eles usam um jaleco.
DOC. -  Como é que é? Você descreve?
LOC. -  Ah, o jaleco, você ... É um, é um avental, não é, que vai até a altura do joelho e de manga comprida. Nós chamamos jaleco.
DOC. -  E por exemplo se você vai assim a um casamento, a uma coisa mais solene, que tipo de roupa você usaria? Ou as pessoas usariam?
LOC. -  Bom, foi bom você ressaltar, porque eu, eu iria com a minha roupa. Mas as pessoas usam uma roupa mais, eh, mais estabelecida, né, aquela roupa formalizada pra aquela, pra aquele tipo de cerimônia, né, que seria terno, no caso dos homens.
DOC. -  Discrimina esse terno aí pra gente.
LOC. -  Bom, mas, discriminar o terno. Essa é uma pergunta muito subjetiva, né, porque ...
DOC. -  Por baixo do terno, sobre o terno, com o terno.
LOC. -  Bom! Terno passeio, né, a pessoa usaria um paletó, a, a tal camisa social, gravata, calça, meia, sapato, também social, até que, se bem que hoje em dia já estão usando sapatos esporte, né, com o terno.
DOC. -  Qual é a diferença que você faz entre o sapato social e o sapato esporte?
LOC. -  Bom, o sapato social seria esse sapato de amarrar, aquele sapato de cordão, e o sapato esporte, geralmente liso também, né, e o sapato esporte, sapatos que geralmente têm alguns desenhos, algumas variações.
DOC. -  Bem, agora, continua com o terno.
LOC. -  Terno? É, pode ser difícil porque isso depende do gosto de cada um, né, botar uma camisa colorida ou uma camisa berrante. A gravata também, estampada, a gravata com desenhos, se ela é lisa ou não. Isso tudo vai depender da pessoa que está usando, né?
DOC. -  Você usa óculos?
LOC. -  Não.
DOC. -  Não? Nem esporte, escuros?
LOC. -  O quê? Eu não entendi.
DOC. -  Nem escuros?
LOC. -  Escuros? Ah, óculos escuros uso.
DOC. -  Como é que são os seus óculos?
LOC. -  Eh, são óculos com armadura em geral muito simples, sem muita, sem muita frescura.
DOC. -  De que material?
LOC. -  Eh, metal desses usados, tá, não sei assim, não me preocupo, quando vou comprar os óculos, se ele é um material de boa qualidade ou não. Me preocupo às vezes se ele é bonito e se ele é barato. Não entro muito assim nesses detalhes.
DOC. -  E esses que você está usando atualmente?
LOC. -  Bom. O último que eu tive foi comprado em, nessa última viagem a Manaus. É um óculos de armadura dourada e lentes bem escuras e no tamanho normal, não muito grande. Eu não estou usando mais porque me roubaram. Eu acho que ele era bonito. (risos)
DOC. -  (inint.) que roubaram, né? Me diz uma coisa, você procura, costuma assim freqüentar algum lugar para tratar de cabelo?
LOC. -  Eh, há pouco tempo eu comecei a, a me preocupar um pouco mais com o cabelo. E eu normalmente, eu cortava assim sem escolher muito o barbeiro, inclusive nunca tive um barbeiro certo. Mas é porque eu também não usava cabelo grande, compreende, mas ultimamente eu tenho deixado meu cabelo crescer, então eu, eu resolvi dar um tratamento melhor a ele e tenho procurado cabeleireiros mais especializados.
DOC. -  E aí? O que você faz lá?
LOC. -  Ah, eu faço lavagem, massagem e o, o corte eu me preocupo mais com certos detalhes que anteriormente eu não me preocupava.
DOC. -  Eu estou muito curioso por saber, que eu também quero adotar. Como é que é essa história (inint.)
LOC. -  Eh, como é como?
DOC. -  Você descreve (sup.)
LOC. -  (sup.) Você quer que eu descreva as etapas do corte?
DOC. -  Estou curioso mesmo, curioso pra burro.
LOC. -  Certo. Bom. Você ... Geralmente esses cabeleireiros são cabeleireiros, vamos dizer assim, que têm uma, que têm um salão mais grã-fino, então você é atendido por uma, geralmente por uma moça bonita.
DOC. -  Ah, é, é?
LOC. -  É, que te, eh, arranja, pergunta se você quer um, tem preferência por algum cabeleireiro particular ou não. Então você diz se tem ou não tem, você, ela te põe numa cadeira e, e você pode fazer a opção se quer só o corte, se quer lavagem também além do corte ou algum, por exemplo massagem, uma outra coisa como massagem. Então você escolhe, quero massagem, vamos dizer, completo. Quero massagem, lavagem e corte. Então, ah, tem uma, uma ajudante, uma auxiliar do cabeleireiro, geralmente não é ele, porque é uma profissão assim, digamos, que eles se consideram artistas, né, então esses trabalhos assim di... digamos, secundários, né, mecânicos, que não exigem nenhuma criação, nenhuma criatividade, é feito por essas auxiliares. Então faz a lavagem, a massagem, uma vez terminada, então ele vem e dá o toque do artista. Só isso.
DOC. -  (inint.) e quanto custa isso?
LOC. -  Eh, com o ... Completo assim deve estar uns cinqüenta contos naquele Braga's, lá da, lá do edifício Central, Avenida Central.
DOC. -  Sei. Agora, me diz uma coisa, e as mulheres, você tem idéia?
LOC. -  Como assim? Do ... Como é que é essas etapas?
DOC. -  Essas etapas de tratamento de cabelo, de rosto, de pele.
LOC. -  Ah, não, sinceramente. Não faço a mínima idéia de como é que é.
DOC. -  Você tem irmãs, a sua mãe, você se lembra assim como é que elas fazem?
LOC. -  Bom, ao cabeleireiro nunca acompanhei, nunca fui com elas ao cabeleireiro ou à manicure ou qualquer coisa semelhante. Agora em casa, o processo é lavar, né, enxugar, botar aqueles rolinhos, não sei, sinceramente eu não sei.
DOC. -  E depois, na hora de sair, o rosto?
LOC. -  É. Faz aquelas maquilagens, né, põe sombra, ruge, ruge não se usa mais, né, batom. Não, não me detenho muito nessas, nessas coisas.
DOC. -  (inint.) nota assim preocupação com escolha de roupa?
LOC. -  Por parte delas?
DOC. -  É.
LOC. -  Ah, isso é óbvio. Ainda bem.
DOC. -  Como assim?
LOC. -  Porque eu acho, apesar de eu não, de eu não me preocupar muito com a minha indumentária, eu acho isso importante nas mulheres, está ouvindo, porque eu acho que a vaidade nas mulheres deve, deve ser uma, uma coisa estimulada, né?
DOC. -  E assim por exemplo em termos de, eh, de você achar importante, como é que você acha uma moça bem vestida? O que você gosta da moda atual das mulheres?
LOC. -  (inint.) bom, eu, eu gostaria de analisar esse ... Eu analisaria essa, essa tua pergunta em relação a uma menina que eu conhecesse, certo? Quer dizer, eu acho que eu vendo assim uma, uma mulher bem vestida na rua, uma mulher que eu não conheço, eu posso, a impressão que ela pode me dar é a impressão de estar, de asseio ou não, né? Agora uma menina que eu conheço, que eu posso identificar que ela, o modo dela vestir, o modo dela se vestir, quer dizer, identificar com os traços do caráter dela, do, do comportamento dela, entende? Pode-se, eh, observar que há uma certa assim coerência, que há, que o modo de vestir é um reflexo do caráter dela.
DOC. -  Por exemplo.
LOC. -  Eh, digamos uma menina que tenha assim certas, certa profundidade, não seja menina fútil, né, então ela vai se vestir de acordo, certo?
DOC. -  De que modo?
LOC. -  Ué! De uma maneira que não seja nem fútil nem vazia, de uma maneira que, simples e sem futilidade, sabe?
DOC. -  O que que ela pendura no corpo?
LOC. -  Eu diria que, dentro do meu conceito de, de futilidade, ela não penduraria nada, né?
DOC. -  Mas nudez não vale, nudez não vale.
LOC. -  Como?
DOC. -  Nudez não vale.
LOC. -  Não, mas pendurar, a pessoa pode estar vestida sem (sup.)
DOC. -  (sup.) Pendurar que eu digo é isto aqui, pôr roupa (sup.)
LOC. -  (sup.) Ah! Sim. Bom, aí eu já daria uma opinião subjetiva, né?
DOC. -  É, é subjetivo mesmo.
LOC. -  É, não seria assim roupas muito berrantes, entende, que chamariam muito a atenção, seriam roupas discretas e, e dentro, eh, agradáveis ao, ao olhar, que fossem agradáveis ao olhar e que fossem também, quer dizer, essenciais, não tivesse muita, muito balangandã, muita frescura pra chamar a atenção (inint.)
DOC. -  E se fosse uma, dentro do seu critério, que fosse fútil e badalativa, como é que você acha que ela se vestia?
LOC. -  Ela se vestiria com roupas, eh, estampadas, com cores vivas e usaria bastante pintura, bastante maquilagem e roupas também assim que ressaltassem a sua sensualidade, tá?
DOC. -  Quais são as roupas que você acha que ressaltam a sensualidade?
LOC. -  Roupas justas, né, que têm, evidencia as formas do corpo, são roupas bem sensuais.
DOC. -  E quanto ao comprimento por exemplo de roupas?
LOC. -  Sim. Qual é a minha opinião? (riso)
DOC. -  Você está por dentro aí dessas oscilações de altura de saia? (riso)
LOC. -  Não, eu acho a ... Eu sou favorável a essa, ao uso da minissaia, né, principalmente pra quem tem pernas bonitas. Eu acho que, realmente eu não vejo que ... É uma coisa agradável, é um modo de vestir agradável, principalmente pra nós, e, e eu não vejo nenhum problema não, assim, moral, eu acho que isso não deprecia a mulher, entende, estar mostrando as pernas. Principalmente porque a mentalidade dos homens está bem mudada, né? Eu acho que a maioria dos homens já estão recebendo isso de outra maneira, né? Eles já conseguem, eh, ver umas pernas, ver uma, um, uma mulher de minissaia sem assim se deixar estimular, certo, ficar sexualmente excitado, com idéias de libido, etc. Isso simplesmente agrada pelo fato ...
DOC. -  Agora, me diga uma coisa, você tem reparado que houve uma mudança assim bem brusca no comportamento da mulher em relação a trajes de modo geral?
LOC. -  Sim.
DOC. -  Em que aspectos?
LOC. -  Eu acho que justamente nessa, por exemplo nesse aspecto da, da minissaia, né, eu acho que essa mudança de comportamento, isso é uma conseqüência justamente de, de uma mudança de pensamento das mulheres. Eu acho que por exemplo há, há dez anos atrás, por mais que a minissaia fosse, que elas considerassem bonitas, eu acho que elas não tinham estrutura para poder usar a minissaia, nem os outros ...
DOC. -  Estrutura física?
LOC. -  Não, estrutura física não, estrutura psicológica e como também os homens, como falei ainda há pouco, né? Eu acho que seria realmente, não estaria de acordo com a, a posição das mulheres dentro da, da, da sociedade. Mas atualmente com, com esse novo modo de pensar, eu acho que é perfeitamente de acordo essa, essa mudança e o uso da minissaia, particularmente o uso da minissaia. Não sei se eu estou sendo claro.
DOC. -  Eu estou te entendendo, mas agora uma outra pergunta que eu queria te fazer ainda, é sobre o comportamento de mulher. Por exemplo hoje é mais comum a mulher usar, não usar saia, né, vestido. Usa calça. Você reparou isso?
LOC. -  Eh, eu acho que aqui no Rio não há assim uma ... Acho que é, eu acho que é difícil inclusive a gente definir o modo de se vestir do carioca, né, porque você vê nessa, nesse, nessa última semana como o tempo variou, né, então não há assim uma maneira definida. Realmente as mulheres usam, ora usam calça, ora estão com vestido, sempre de acordo com, com o clima, né? E, quer dizer, eu acho que é difícil, talvez se eu morasse em outro estado, num estado assim que o, a temperatura, que o clima fosse mais constante, talvez que eu pudesse, eh, responder mais definiti... mais objetivamente essa tua pergunta. Realmente eu tenho observado que as mulheres usam calça, usam vestido.
DOC. -  Por exemplo você ensina só (inint.)
LOC. -  Não. Eu ensino atualmente na Escola Naval e faço um curso de pós graduação no Centro Brasileiro de Pesquisas.
DOC. -  Praticamente não tem mulheres, né?
LOC. -  Tem.
DOC. -  Tem? E como é que elas vão estudar? Os trajes?
LOC. -  É. Normalmente vão de calça comprida.
DOC. -  Normalmente?
LOC. -  Normalmente.
DOC. -  E que mais?
LOC. -  Saia e blusa, conjunto de saia e blusa. Mas o, o traje mais geral é calça comprida.
DOC. -  Que tipo de calça (inint.)
LOC. -  Eh, calça Lee, calça ...
DOC. -  E sapato?
LOC. -  Não observo.
DOC. -  Não observa? Agora me diz outra coisa, você falou que tinha assim reparado, eh, em Manaus, calor, um tipo de, de roupa leve. Essa roupa leve depende do tecido ou é do feitio?
LOC. -  Sim, do tecido obviamente, né? Acho que a, a leveza da roupa está associado ao, ao tecido, não a outra relação.
DOC. -  Quais são esses tecidos, assim, leves? Poderia citar?
LOC. -  Eh, não sei, eh, eu poderia te citar linho, eu acho que é um tecido leve, eh, o algodão já é um pouco mais pesado.
DOC. -  E essas fibras (sup.)
LOC. -  (sup.) Lonita é um tecido leve (sup.)
DOC. -  (sup.) sintéticas (sup.)
LOC. -  (sup.) Poliéster, né, parece ser tecido leve também, não sei.
DOC. -  Agora conta pra mim a vida disso aqui. Nasce, vive e morre.
LOC. -  Você diz desde o, desde quando ela é feita?
DOC. -  Pode ser.
LOC. -  Bom, isso aí tem uma origem vegetal e por processos industriais é formada a linha, né, extraída do vegetal e ... Isso numa primeira fase industrial, né? Depois, numa segunda fase, isso é transformado num tecido e numa terceira fase seria a de confecção propriamente da, da camisa.
DOC. -  Discrimina isso.
LOC. -  Como assim?
DOC. -  Como é que é isso? As partes aí dessa confecção.
LOC. -  Eh, do tecido ou da camisa?
DOC. -  Da camisa.
LOC. -  Da camisa. Eu acho que não há assim uma discriminação, não. Eu acho que a, o processo aí não deve ser um processo mecânico, deve ser um processo manual e portanto deve ser, não deve haver partes, né, deve ser feito como um todo, como unidade. Não é assim como um automóvel que você tem certas etapas e depois no final você tem a seção de montagem, certo? Eu acredito que a confecção de uma roupa, eh, deva ser feita por unidades, né?
DOC. -  Mas como é? O cara recebe a, a matéria bruta e aí faz o que com aquela matéria bruta?
LOC. -  Sim, a matéria bruta seria o tecido, ele corta, tem um, um molde, né, faz o molde e depois tem a, a costura propriamente dita, né?
 Isso seria feito, como eu disse, por uma única pessoa.
DOC. -  E depois você comprou a camisa e aí?
LOC. -  Depois desse processo tem o processo de distribuição, né, pro mercado e o consumidor então compra, usa, usa, usa, usa, usa e acaba (sup.)
DOC. -  (sup.) E aí? Bom, mas entre usar e acabar tem umas fases.
LOC. -  Entre usar e acabar, bom, tem as lavagens.
DOC. -  É, como é que é feito isso?
LOC. -  Bom, isso dentro de uma família da classe m'edia, né, seria feito através de um processo automático de máquina de lavar roupa e haveria, nesse processo de lavagem, a, a lavagem, propriamente dito, secagem, depois a, a roupa é passada, vai pra gaveta, o consumidor tira da gaveta, usa, usa, usa.
DOC. -  E como é que ele faz pra, pra usar (inint.) isso aqui.
LOC. -  Bom, uma camisa como a sua, ele, que tem botões, ele pegaria da, da gaveta, se estivesse dobrada, certamente estaria abotoada, ele desabotoaria, desabotoaria e colocaria no corpo e abotoaria os botões nas suas respectivas casas.
DOC. -  Me diz uma coisa, você mora aqui em Ipanema, verão. Você poderia me descrever os trajes das pessoas no verão?
LOC. -  Vocês estão enchendo o saco com essas, com essas roupas, heim!
DOC. -  Essas roupas (risos) tenta, assim, pra eu ter uma idéia de como é o verão de Ipanema.
LOC. -  Eu no verão em Ipanema? Ah, eu usaria uma bermuda estampada, né, principalmente se eu estivesse a fim de dar umas paqueradas, eu usaria uma, uma bermuda estampada, curta, como eu disse, uma camisa leve, um pano leve, provavelmente essa sandália aqui, os meus óculos escuros se não tivessem sido roubados. (risos) Eu acho que seria isso.
DOC. -  E aí você ia dar uma paquerada em quem? Vestido com o quê? (risos)
LOC. -  Heim?
DOC. -  Em quem e que estaria vestido com o quê? (risos)
LOC. -  Ah, sei. (riso) Não, eu certamente não iria paquerar uma, um vestuário, iria procurar uma aproximação com uma pessoa, since... sinceramente que não me preocuparia muito com, com o vestuário, a não ser que, eh, como eu disse anteriormente, logicamente eu teria uma certa atração por pessoas cujo vestuário, eh, ressaltassem, justamente, aqueles tipos, gostos de caráter, né, que eu gostaria de me identificar, né? Em outras palavras, não procuraria uma pessoa que estivesse com uma blusa extremamente estampada, ultrapintada, certo? Quer dizer, só nesses aspectos é que eu poderia me lembrar do vestuário dela.
DOC. -  E na praia?
LOC. -  Na praia, eu usaria uma, uma sunga de pano e sem ser estampada, de cor, uma cor viva de preferência, mas sem ser estampada. E olharia pras, pras meninas que estivessem com, com biquínis, eh, aí eu não teria assim detalhes dos biquínis não, mas meninas que estivessem usando roupas de maneira que ressaltassem a sua, o seu físico, seu ...
DOC. -  Agora, vem cá, me diz uma coisa, por acaso você tem alguma idéia de roupa de criança?
LOC. -  Tenho, alguma idéia tenho.
DOC. -  (inint./risos) isso não (inint.) não tem jeito. (risos)
LOC. -  Bom, criança ...
DOC. -  Se você fosse ter um filho, você teria de fazer um enxoval pro seu filho, certo?
LOC. -  Certo, aí eu começaria a me preocupar com isso. (risos)
DOC. -  (inint.) se você tivesse que comprar ... Mas imagina, agora, que você fosse comprar as coisas. O que você compraria? Aquela mulher que você transou há nove meses atrás, bateu aqui e soltou um filho. (risos)
LOC. -  Bom, eu pro vestuário de uma criança, eu pensaria primeiramente nas fraldas, né? As fraldas. Pensaria em roupinhas, eh, de lã, feitas de lã, que seria um casaquinho ou alguns casaquinhos, eh, esses macacões, né, esses macacões também, de lã, sapatinhos de lã, que são feitos pra criança. Eh, isso pensando nas roupas de frio, né? As roupas leves, eh, blusas de malha e, e 'shorts', já pensando numa criança um pouco maior, eh ...
DOC. -  (inint.) você freqüentou que escola?
LOC. -  Primária? Eu freqüentei o Instituto de Educação.
DOC. -  Tinha alguma roupa especial pra ir pra escola?
LOC. -  Tinha. Tinha aqueles aventais, né, escrito aqui o nome do, do dito cujo, tinha uma merendeira de pano, quer dizer, do mesmo tecido do avental que também levava, eh, o nome do cidadão e, e esse avental era usado por cima de uma calça curta azul-marinho e uma camisa branca com o distintivo do colégio.
DOC. -  Depois você passou pra que colégio? Você fez todo o curso lá?
LOC. -  Bom, eu fiz o primário, o jardim de infância e o primário lá.
DOC. -  E o primário, mudava essa roupa?
LOC. -  Bom, o primário, apenas, eh, não usava mais o avental, eh, eu esqueci de dizer que eu usava sapato também, né, sapato e meia. (risos)
DOC. -  Tinha um sapato especial?
LOC. -  Sim, esses sapatos escolares, né, são chamados assim, que, hoje, guardadas assim a, que seria, vamos dizer, geraria o, o sapato social, né, quer dizer, o mesmo tipo sem muita, de amarrar, sem desenhos, um sapato simples, e a meia também era uma meia preta, não poderia, não poderia ser meia colorida. Quer dizer, no primário, eh, só tirava o avental e, e era introduzida uma gravata, que o prendedor da gravata eram tiras do mesmo tecido do, da, da camisa e o número de tiras, eh, assinalavam a série do, lá do estudante, né?
DOC. -  E depois você foi pra que colégio?
LOC. -  Depois eu fui pra o Colégio Militar, que aí eu posso dizer qual era o uniforme que aquilo era uma coisa padrão.
DOC. -  E como é que era?
LOC. -  Bom, o uniforme do, de lá era um, um borzeguim, não sei se você sabe o que é um borzeguim.
DOC. -  Não.
LOC. -  É um, uma, uma bota que vai até a altura do tornozelo, mais ou menos, você usava aquilo com, obrigatoriamente com meia preta e usava calça cáqui com uma lista vermelha, bem psicodélico. Eh, uma, uma gandola cáqui também.
DOC. -  Que que é gandola?
LOC. -  Gandola é uma, é uma camisa de manga comprida que no meio militar eles chamam de gandola, né? Presumo, não sei se tem assim uma origem, eh, não sei qual é a origem do termo (sup.)
DOC. -  (sup.) É igual a camisa social? (sup.)
LOC. -  (sup.) É uma camisa social, igualzinha, só que recebe esse nome, né? Eu acredito que isso tenha origem dentro do militarismo, né, não sei qual a origem da palavra. Bom, essa gandola era cáqui, botões pretos, a gola, na extremidade, tinha, essa parte triangular da gola era vermelha e tinha aqui um ... Como é o nome disso mesmo, que eu já estou até esquecido?
DOC. -  Não sei não.
LOC. -  Eh, ombreira. Talvez ombreira, não é? Uma ombreira. E só. Usava casquete também (inint.) o símbolo do colégio (sup.)
DOC. -  (sup.) Por cima da camisa não tinha nada de roupa?
LOC. -  Bom, esse era o uniforme interno, realmente. Externamente a gente tinha de colocar um 'dolman' que nada mais era do que, nada mais é do que um, um, um paletó, né, mais pesado. Seria o correspondente do paletó num terno passeio, né, num traje passeio. E era fechado até, até em cima. E no, nesse uniforme a gente tinha que substituir o casquete pelo, por um quepe, quepe vermelho, pra completar.
DOC. -  Quantos anos você passou lá?
LOC. -  Passei sete anos.
DOC. -  Sete anos?
LOC. -  Raquel serviu a Labão sete anos. (risos)
DOC. -  Me diz uma coisa, você tinha dias assim de exercícios físicos?
LOC. -  Tinha. Nesses dias, eu já sei que você vai me perguntar o que é que eu usava, vou logo dizendo. (risos) Eu sei que você não vai perguntar o que que fazia, se eu subia em barra ou se eu corria, que seria a parte mais interessante. Mas o, o uniforme de, de educação física era um calção azul-arte com uma risca vermelha, tênis branco, meia branca e camiseta branca sem manga.
DOC. -  Sem manga? E aí o que é que vocês faziam?
LOC. -  O essencial, não precisa ...
DOC. -  Faziam vocês marcharem?
LOC. -  Não. São exercícios assim de, esses exercícios convencionais dessa vida: corridas e, e brincadeiras, geralmente, jogos educativos, né, pra, eh, desenvolver a coordenação dos jovens, né? Esses exercícios, não sei se você já fez educação física alguma vez (sup.)
DOC. -  (sup.) Já.
LOC. -  Mas tem diversos tipos de, de exercícios, né, atendendo uma determinada finalidade (sup.)
DOC. -  (sup.) Eu ia até te perguntar, mas depois ficou difícil porque você nunca esteve assim numa escola que fosse mista, né, que tivesse rapazes e moças, né? (sup.)
LOC. -  (sup.) Como aluno não, como aluno não. Ah, sim, você diria então que os exercícios ... A sua curiosidade viria disso, né, que você, por, certamente estudou num colégio misto e pros homens os exercícios seriam diferentes (sup.)
DOC. -  (sup.) Havia oportunidade, assim, pra, pra jogar voleibol, pra jogar, pra, geralmente assim no dia de ginástica era comum, então a gente tinha aqueles trajes. Você tem idéia de como é que seria?
LOC. -  Pras meninas?
DOC. -  É.
LOC. -  Ah, eu, no, no meu estágio lá no Instituto de Educação tive oportunidade de observar, né? Eram maiôs, maiôs, eh, pretos, de malha preta e geralmente acompanhados de um saiote e tênis e meia, se não me engano. Se não me falha a memória, porque já faz muitos anos, né? Mas acho que havia algumas variações talvez, uns 'shorts' com blusas de malha branca. Isso varia de lugar pra lugar, né?